Menina / Mitacuña

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capa baixa

 

Um soldado negro brasileiro, desertor do exército imperial, e uma menina guarani, cruzam o interior devastado do Paraguai rumo a Assunção. Ela, busca redenção; ela, esperança.

Esse é o pano de fundo do romance Menina / Mitacuña, lançado pelo jornalista e escritor Paulo Stucchi.

O projeto, que nasceu como uma tese não-concluída de mestrado, é resultado de anos de pesquisa sobre a Guerra do Paraguai (ou Guerra da Tríplice Aliança). Nele, Stucchi tece fatos históricos e fictícios para construir a narrativa que conta a história de Negro João, um escravo enviado ao Paraguai, e María, uma menina paraguaia que fala unicamente guarani.

Unidos pela tragédia e pelo destino, ambos fogem pelo interior do país rumo a Assunção, enquanto são perseguidos por um grupo de soldados batedores sedentos de vingança.

 

História

 

A Guerra do Paraguai é um dos episódios mais sangrentos da história da América do Sul, e uniu Brasil, Argentina e Uruguai contra o vizinho Paraguai de Solano López.

O conflito, que praticamente dizimou  a população masculina ativa paraguaia, até hoje é alvo de estudos e controversas. O autor viajou para o interior do Paraguai e conversou com historiadores nativos, além de usar como fonte de pesquisa livros paraguaios e argentinos.

“Em linhas gerais, a visão que cada país tem da guerra é diferente”, explica Stucchi. “Ainda hoje, há diferentes correntes que defendem pontos de vista diversos sobre a guerra, como, por exemplo, o papel da Inglaterra como financiadora da guerra e se Solano López era, ou não, um vilão de fato.”

Outros pontos históricos tratados no livro envolvem cenários de guerra, como a Batalha de Acosta Ñu (ou Campo Acosta), na qual 3.500 crianças paraguaias travestidas de soldados adultos foram massacradas pelas tropas lideradas pelo Conde d’Eu. Até hoje, a data (16 de agosto) é lembrada como Dia das Crianças no Paraguai.

“É notória a mágoa que os paraguaios nutrem contra figuras como o conde d’Eu, por exemplo”, diz Stucchi, que, no livro, retrata o nobre francês que liderou as tropas aliadas na fase final da guerra como vilão.

“Foi uma licença artística, na verdade. Não há fatos concretos de que o conde d’Eu tenha sido um psicopata, como a história paraguaia às vezes pinta. Na verdade, ele era europeu, a historicamente as guerras na Europa eram sangrantas.”

Entre os episódios atribuídos ao conde na Guerra está a tomada de Piribebuy (3ª capital provisória paraguaia na época da guerra) e a execução do general paraguaio Pablo Caballero. Além disso, é conhecido o massacre de feridos e idosos ordenado pelo conde – ele teria mandado lacrar um hospital e atear fogo, matando a todos queimados ou sufocados pela fumaça.

 

Espanhol

 

O livro também foi lançado no Paraguai e está disponível para leitura, em espanhol, com o título de Niña / Mitacuña. Inicialmente, os pontos de venda incluem das livrarias El Lector e ServiLibros (Assunção) e a livraria El Lector do shopping Pinedo em San Lorenzo.

 

O Triste Amor de Augusto Ramonet

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Não suportando conviver com a culpa pela morte precoce da esposa Eva, o jovem escritor César Martinelli está determinado a dar cabo da própria vida afogando-se no mar da deserta Praia do Santo. Contudo, seus planos mudam quando ele encontra acidentalmente um manuscrito pertencente a um escritor chileno chamado Augusto Ramonet que narra uma história de amor marcada pela obsessão, drama e reviravoltas num Chile que convive com a crise do final do governo de Salvador Allende e o golpe de Augusto Pinochet.

Além de tentar solucionar o mistério do manuscrito, César ainda se vê às voltas com uma misteriosa mulher ruiva chamada Catarina que, de algum modo, parece ter relação com o passado de Ramonet e com o manuscrito.

Agora, o escritor deve descobrir o que está por trás da história do manuscrito de Ramonet, desvendar quem é Catarina e, de algum modo, encontrar paz para seu próprio espírito.

O Triste Amor de Augusto Ramonet tece uma complexa história de amor, na qual são abordados temas ligados às paixões humanas, perdas e redenção por meio da paz interior, usando como cenário o conturbado momento histórico do Chile na segunda metade da década de 60, e o espírito de um jovem escritor atormentado pela culpa.

Degustação de O Triste Amor de Augusto Ramonet

Se vocês estão lendo este texto, é sinal de que, finalmente, abracei meu destino. Eu estou morto sob as águas do oceano.

Para muitos amar é o momento mais nobre que um ser humano, homem ou mulher, pode gozar durante sua breve existência na Terra.

Mas, para mim, amar significou um sofrer eterno. Um tumor que se alastra e toma conta de todos os órgãos, dos sentidos.

Fui feliz ao amar? Respondo, sem pensar, que sim. Gozei da extrema felicidade por poder estar perto e passar horas a fio conversando com a mulher que amei.

Mas o que ninguém conta sobre o amor é que a dor que ele causa supera qualquer alegria que possa trazer.

Amei, fui feliz e sofri. Sofri de uma dor infindável, que se avolumou como bola de neve, cresceu, tomou meu corpo como um câncer maligno, cruel e insensível. Mas que culpa tem o câncer se, na verdade, ele só quer sobreviver? Ele não é como o amor? Cresce pulsando vida, e, ao final,mata seu hospedeiro, morrendo com ele?

E, agora, tomo coragem para ir ao encontro do meu destino.

Como disse, se vocês estão lendo este texto, é porque já não estou mais entre vocês. É porque morri.

Capítulo 1

Joguei a última muda de roupa na mala. Juro que tentei dobrar a camisa como Eva fazia. Repeti mentalmente os passos: esticar, de bruços, a peça sobre a cama; pegar a manga esquerda, puxar para o centro; depois, repetir o mesmo passo com a manga direita; com agilidade, fazer pequena dobra interna nas mangas direita e esquerda. Em seguida, pegar a barra da camisa, prendendo com a ponta dos dedos em ambos os lados, e erguer até a altura dos ombros.

Era para estar perfeito. Fiquei alguns segundos olhando o resultado sobre a cama de casal estendida, mas não aprovei. Definitivamente, eu não tinha habilidade para aquilo.

Num acesso de raiva e frustração, desfiz o serviço e amontoei a camisa junto das demais – igualmente amontoadas – dentro da mala.

Durante o ímpeto da mudança, tive que sair às pressas comprar uma mala nova quando percebi que a única de que dispunha havia sido presente de Eva. E não queria nada que me ligasse a ela.

Mesmo sem o mínimo ânimo, deixei minhas pernas me guiarem até uma loja de departamento próxima, onde consegui encontrar uma mala em bom estado numa dessas promoções pós-Natal. Nem notei que minha recente aquisição estava com um considerável defeito na costura, que era tão torta quanto um caminho de rato. Mas aquilo pouco importava. Ela servia ao meu propósito.

Fechei a mala, puxei o zíper. Estava finalmente pronto para partir.

Dei uma última olhadela pelo quarto vazio. Novamente, a cama de casal king-size meticulosamente arrumada, travesseiros devidamente posicionados onde deveriam estar, prontos para acomodar as cabeças cansadas e apaixonadas de um homem e de uma mulher recém-casados. Nenhum sinal de vida. Nem sapatos pelo chão, toalhas molhadas largadas em cima da mesa ou penduradas no porta-chapéus. Tampouco o guarda-roupa exalava algum sinal de que, ali, havia morado alguém um dia.

Fechei a porta atrás de mim, sustentando a mala que estava estufada de roupas. Tive o ímpeto de retornar e deixar algumas camisas e calças para trás, mas resisti. Não queria mais entrar naquele cômodo.

Passei a chave e segui pelo corredor. Detive-me um instante na porta do quarto vazio, que estava entreaberto. Nenhum móvel, nada, apenas o cheiro de pintura nova. Aquele cômodo deveria abrigar o filho planejado para dali a dois anos, que, no entanto, nunca chegaria. Passei chave nesse cômodo também e prossegui, chegando à sala.

Era um ambiente grande, confortável. Mesa de centro com tampo de vidro, dois sofás, um de dois e outro de três lugares, ambos de couro marrom-escuro. Um tapete persa em tons ocre e vermelho-escuro, combinava com as cortinas de renda bege, que caíam em frente à porta basculante que dava para a sacada.

Dei uma última varrida com os olhos em tudo aquilo. A partir do momento em que saísse dali, os móveis, a sala confortável, o quarto do futuro bebê seriam passado. Evitei passar pela cozinha e pela sala de jantar. Eva havia se incumbido pessoalmente de decorar esses dois ambientes.

Tomei o corredor estreito e curto que dava para a porta de saída. Foi impossível não passar pelo espelho, estrategicamente colocado ali por Eva. Tática feminina, que permitia uma última verificada no cabelo e na maquiagem antes de ganhar a rua.

Mas, agora, era minha imagem que via ali refletida. Ou, melhor, o trapo que restou do que havia sido César Martinelli, um dia considerado escritor prodígio, vencedor de prêmios importantes logo em seu livro de estreia. O que via, ali, era a figura de um homem aparentando uns 40 e tantos anos, com sulcos profundos nas faces e uma barba desgrenhada que faria inveja a qualquer andarilho da capital.

O ser à minha frente não tinha nome, nem passado. Muito menos, vida.

Era um nada e, como tal, queria mergulhar no vazio mais profundo que conseguisse.

De repente, senti que uma lágrima queria sair. Engoli em seco. Havia jurado que não choraria mais, que tudo o que era líquido dentro de mim havia secado.

Segurei o choro do adeus e enfiei a chave. Girei, abri a porta e vi o elevador à minha frente. Dei três passos para fora e ouvi o barulho da porta se fechar. Estava feito.

Capítulo 2

Havia rodado quase quatro horas quando resolvi parar num posto de serviços, desses de rede, que, ano a ano, salpicavam as principais vias de tráfego do Estado.

Peguei o celular no console do carro e acionei as travas automáticas com o chaveiro. Mal liguei o telefone e quatro mensagens pularam à minha vista. A primeira era  uma ligação perdida de minha mãe. Tinha me esquecido de ligar para ela. Desde que meu pai morrera, há três anos, minha mãe havia se apegado muito a mim. Não que eu não gostasse do afeto materno, mas tinha horas em que me sentia sufocado e amaldiçoava ferozmente o fato de não ter tido outros irmãos.

As outras três ligações eram do meu agente. Ele podia esperar mais algumas horas por um contato meu.

Enfiei o celular no bolso da calça e me dirigi ao restaurante. Pedi um café com leite e um queijo quente. Não havia comido nada o dia todo. Porém, assim que o menino com o rosto coberto de espinhas colocou o prato com o sanduíche na minha frente, meu estômago deu voltas. Uma mordida foi suficiente para a fome passar e, então, me dediquei totalmente ao café com leite. Depois, pedi um café preto.

O ruim de viajar no final do ano é o tráfego terrível nas estradas, sobretudo nas que vão para o litoral. Perdi cerca de quarenta minutos na fila do caixa e, assim que minha vez chegou, passei o cartão de débito e segui para fora, deixando o ar serrano encher meus pulmões.

Saquei um cigarro do maço e fumei vagarosamente, curtindo cada tragada. Notei com ironia a mensagem da caixa de cigarros: “Este produto contém substâncias tóxicas”. A foto estampava um homem, provavelmente vítima do câncer, moribundo em seu leito, sob os olhares desamparados da filha e da esposa.

Invejei-o. Ele, pelo menos, tinha esposa e filha ao seu lado nos últimos momentos. Eu não teria ninguém ao meu lado no momento de minha morte. A não ser que esperasse a nicotina, o tabaco e o alcatrão fazerem efeito sobre meus alvéolos.

Esmaguei o cigarro com o pé e voltei para o carro. Escolhi com cuidado um CD para me fazer companhia durante o restante da viagem. Legião Urbana me pareceu a opção perfeita. Nada mais deprimente do que a fase final da vida de Renato Russo e, dessa maneira, nada mais adequado para o meu momento.

Assim que o CD player engoliu o CD e a música encheu as caixas de som do carro, parti. Segundo meus cálculos, ainda teria umas três horas de estrada até a Praia do Santo.

Rodei cerca de uma hora e meia em pista dupla até pegar uma rodovia adjacente. Ali indicava, em letras grandes, Caraguatatuba e Ubatuba. Pouco à frente, outra placa, mais modesta, indicando Praia do Santo. Meu destino. Quase deixei a saída para trás, mas tive tempo para uma manobra rápida.

A estrada, como previsto, era horrível. Sinal de que estava próximo. O CD com a voz grave de Renato Russo já havia se repetido várias e várias vezes. Atento à estrada, eu deixei de lado a música.

O relógio digital do painel indicava cinco horas. Hora da chuva. Uma nuvem negra e assustadora tomou o céu e, em minutos, fez vir abaixo uma chuva torrencial.

Praguejei, porque aquilo, certamente, atrasaria minha chegada. Mas, afinal, por que a pressa?

O celular pulou do painel do carro. Reconheci o número do meu agente. Havia me esquecido de desligar o aparelho, mesmo porque a possibilidade de haver algum sinal naquele fim de mundo era mínimo. Mas Lupércio, de algum modo, tinha conseguido me contatar.

Apanhei o aparelho antes que ele escorregasse para o vão entre os bancos.

- César – atendi.

- César! Você está vivo, homem! – berrava a voz do outro lado.

Lupércio tinha aquele tipo de voz de fumante inveterado, rouca e grave, mesmo que nunca tivesse colocado um só cigarro na boca. Sinceramente, nas mulheres, sempre achei tal voz charmosa, excitante até. Mas nele o timbre ganhava um tom cavernoso e funesto.

- Não estou te ouvindo muito bem – anunciei, pronto para desligar o aparelho.

- César… está me ouvindo? Como você está, homem? Ou, melhor, onde você está?

Passei alguns segundos torcendo para a ligação morrer. Finalmente, quando cheguei a um ponto totalmente estragado da estrada, o celular apagou. Recoloquei o aparelho sobre o console, não sem, antes, resistir à tentadora ideia de atirá-lo pela janela.

A chuva durara poucos minutos, o suficiente para enlamear as vias.

A paisagem à beira da estrada era de pobreza e abandono. Barracos ou casas mal acabadas de alvenaria se amontoavam em meio a ruas de barro, poças e esgoto. Crianças, muitas crianças, corriam sujas pelo lamaçal. A maioria tinha o cabelo tão sujo e duro, que não era possível notar, senão com muito esforço, humanidade naquelas figuras.

Isso me fez sentir uma ponta de remorso e ter vontade de dar meia-volta e retornar ao conforto da capital. Afinal, havia conquistado cedo o sonho de muitos jovens, sobretudo daqueles que sonham em viver de literatura num país semialfabetizado como o Brasil.

Comprara um apartamento num bairro residencial excelente em São Paulo, reformara-o. Comprara móveis de primeira linha, sem luxo, mas confortáveis o suficiente para assegurar comodidade para uma família. E, agora, estava metido num fim de mundo desgraçado, vendo crianças malnutridas e imundas correrem ao lado do meu carro.

Distraído, meti o pneu num buraco. Transitar por aquela estrada era um verdadeiro teste para competir em Paris-Dakar. O susto do impacto fez com que retornasse a mim e apertasse o volante. Mas isso não impediu que o carro caísse num segundo buraco, ainda maior. Temi que o air bag fosse acionado pelo baque. Logo, notei que o volante puxava para o lado esquerdo. Mau sinal. Algo no eixo.

- Merda! – gritei, esmurrando o volante com as mãos espalmadas.

Olhei em volta. Não havia uma vivalma por ali, somente eu e meu C3 que, agora, andava à meia-boca.

Andei mais ou menos uns dez minutos, cerca de três quilômetros naquela estradinha esquecida por Deus. Estava dividido entre parar em alguma mecânica, borracharia ou similar – se houvesse algo assim por ali – ou seguir em frente. Foi então que notei, do lado esquerdo da estrada, atrás de alguns casebres empilhados como dominós, o mar.

O relógio digital do painel apontava seis e quinze. Tomei a decisão de encostar num canteiro propositalmente deixado para emergências. O chão era coberto por folhas. O pequeno espaço, o suficiente para um único veículo, era margeado por um barranco coberto por raízes expostas e terra.

“Perigo para um deslizamento iminente”, pensei.

Peguei um mapa que estava todo dobrado dentro do porta-luvas e saí do carro. Acendi um cigarro e sentei sobre o capô. Dei umas três belas tragadas e estendi o mapa. Corri o dedo pelo percurso que havia feito. Saída de São Paulo, a rodovia litorânea, o acesso a Ubatuba e, finalmente, sentido Angra dos Reis e Paraty. No meio desse caminho todo, perdida entre São Paulo e Rio de Janeiro, deveria estar a Praia do Santo.

Notei que tudo estava escurecendo rápido. Pelo horário de verão, não deveria ser noite, o que me deixava uma segunda – e pior – hipótese: nova pancada de chuva.

Voltei para o carro, atirando a bituca do cigarro longe. Se o mapa não estivesse mentindo, ou se eu não tivesse perdido o pouco juízo que me restava, em menos de uma hora chegaria à Praia do Santo.

Fiz a manobra para voltar à estrada e quase fui engolido por um caminhão pequeno, desses de carreto, que descia provavelmente desengatado e fazia a curva como se fugisse da polícia.

Berrei o pior palavrão que me veio à cabeça, mas o único a ouvir foi o vento. Por fim, depois de um longo suspiro, retornei à estrada e segui.

 

A Fonte

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A Fonte (Scortecci Editora, 2010)

Marcelo Kovich é um jornalista aclamado no meio político. Em seus anos trabalhando em Brasília, criou uma relação simbiótica com o poder da capital federal. Para ele, não há limites no jogo de poder, senão a única coisa que preza em sua profissão: suas fontes.
Contudo, as ambições e a própria carreira de Kovich são colocadas em xeque quando este recebe a denúncia do envolvimento de um preeminente Senador num crime passional. A partir de então, Kovich se vê dividido entre preservar sua fonte ou colocar em risco tudo o que mais ama: seu ego e sua carreira  jornalística.
Lançado da Bienal do Livro de 2010, A Fonte é um retrato real e desnudo do 4º Poder (o jornalismo) e a Política.

Preço: R$ 38,00
Editora: Scortecci – www.scortecci.com.br
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Confira o 1º Capítulo!

Marcelo tomou o último gole de café no copo plástico e conferiu que os grãos da cafeteira elétrica que turbinava o trabalho de toda a redação durante o dia haviam acabado.

Pudera. Eram dez e meia de sexta, o jornal já fechara, e ele ainda perambulava pela redação, vez ou outra argumentando rispidamente com o editor de sua seção, Política, recarregando os porquês de ele segurar a capa do caderno, prometendo-lhe um furo sensacional.

- O cara disse que me ligava às dez e quinze. Vamos esperar, Teodoro – respondia a cada vez que seu superior esbravejava, dizendo que o editor-chefe estava no seu saco e que a edição tinha que ir para a rua.

Marcelo acendia um cigarro, mesmo que a placa de proibido fumar pairasse bem defronte à sua mesa. Era o único que fumava dentro da redação, recusando-se a usar a área de fumantes – o fumódromo, como chamavam os mais maldosos. Era o jeito de espantar o estresse e a tensão.

Conferiu o maço. Era o último Marlboro do dia. Precisava passar no bar antes de ir para casa comprar um novo maço.

- Furo o cacete, Kovich – berrava Teodoro todas as vezes que desligava o telefone. – O Hélio está no meu saco dizendo que tem que rodar!

Hélio era o gerente industrial da gráfica do jornal. Cara que tinha tinta nas veias, filho de um grande gráfico do Distrito Federal e que tinha aberto sua própria empresa depois que os negócios de sua família foram dilapidados por seus outros quatro irmãos.

Acabou fechando sua gráfica também e entrando para o grupo do Diário da Esplanada, um dos mais jovens e pujantes veículos impressos de Brasília e Cidades Satélites.

- Ele vai ligar, cacete – respondia Marcelo.

- Vai? – Teodoro repetia sempre o mesmo gesto quando era contrariado. Soltava seu corpo de quase cem quilos sobre a cadeira de encosto reclinável e suspirava como um porco agonizante. – Acho que você está perdendo o faro, cara. Está dando crédito para um tal Ermínio, que você não sabe nem se se chama assim, e que disse ter uma bomba sobre um famoso Senador. E justo o Senador Paiva. O cara diz que vai ligar, que a bomba é do caralho, e some. E eu estou sendo comido vivo apostando no seu feeling. Vá à merda!

- Vá à merda você! – berrou Marcelo, no mesmo tom. Depois, abaixou a cabeça, ficou olhando a ponta do sapato 752 Vulcabras, que usa desde sempre. Era sua técnica para se acalmar, retomar o controle da situação.

- Olha, Teo, sei que estou pedindo demais. Sei que já segurou minha barra muitas vezes…

- Muitas vezes? Quantas nesses últimos quinze anos?

- Eu sei… – Marcelo apagou o toco de cigarro no copo de café ainda úmido. – … eu sei, e te agradeço. Mas tenho faro, você sabe. É quente. Vai ser bomba.

- Se meu rabo assar, Kovich, o seu assa junto. Está ouvindo? Desta vez, você se ferra comigo! – disse Teodoro, ameaçador, com o dedo em riste na cara de Marcelo.

Agora era Marcelo que voltava para sua mesa. Dez e quarenta. Sua fonte, sua fonte quente que lhe garantiria um furo, estava dando para trás.

Pela manhã, logo depois de ter fumado seu primeiro cigarro do dia, o telefone de sua mesa tocara. Janaína lhe passara uma ligação de um tal de Ermínio, somente Ermínio, que queria falar com o jornalista Marcelo Kovich. Ele.

Em tantos anos de jornalismo impresso, havia ficado escolado em diferenciar malucos que queriam aparecer em cima de celebridades e ganhar seus cinco minutos de fama, e fontes realmente quentes, que trazem furos importantes.

Atendeu o tal Ermínio meio contrariado. Começar o dia com alguém lhe descarregando bobagens como óvinis, mulheres de duas cabeças, lobisomens e outros seres fantásticos não era bom presságio.

- Senhor Marcelo Kovich? – anunciou uma voz fraca, tímida, do outro lado da linha. Tinha um timbre agudo,  o que levou várias vezes Marcelo a suspeitar de que estava falando com uma mulher, e não um homem.

- Ele – respondeu, desanimado. – Com quem eu falo?

- Quem eu sou não é muito importante, senhor Kovich. Mas pode me chamar de Ermínio. Só Ermínio.

Esse nome não lhe saiu da cabeça durante todo o dia.

- Em que posso ajudá-lo, senhor Ermínio. Gostaria que fosse breve, seja qual for o assunto, porque tenho várias ligações para fazer ainda.

- Mas acho que o que tenho para lhe dizer é muito importante, e vai valer seu tempo. É sobre o Senador Paiva. Acho que o senhor como jornalista experiente em coberturas no Planalto, sabe de quem estou falando.

Como não? O Senador Romero Paiva fora por duas vezes canditado à presidência do Senado e era um dos alicerces do atual Governo na Casa. Nunca ocupara chefia de nada, mas sempre optara por atuar nas sombras. Era aquele tipo de poder oculto sem o qual nenhum político que dá a cara para bater em cargos de chefia do Executivo e Legislativo se sustenta.

Se minha fonte quase anônima queria despertar minha atenção, estava no caminho certo.

- Ainda está aí, senhor? – chamou Ermínio, frente ao silêncio de Marcelo. Nesse momento, o jornalista pôde notar uma entonação meio subserviente, o que denotava que o seu interlocutor deveria ser algum funcionário de escalão menor. E, se o que dizia era verdade, deveria frequentar os corredores do Congresso, uma vez que tinha informações “quentes” sobre um alto Senador. Provavelmente algum assessor de gabinete, ou mesmo um membro apadrinhado do partido do Senador Paiva. Também notou um sotaque puxado, tipicamente nordestino, o que indicava que provavelmente vinha da mesma região de Romero Paiva, que era cearense.

- Estou sim. Pode falar – pediu Marcelo, puxando para junto de si um bloquinho de anotações e pegando uma caneta.

Ermínio pigarreou.

- Prefiro falar pessoalmente.

Marcelo sentiu sua adrenalina brochar. O homem tinha conseguido segurar sua atenção e, agora, no clímax, dizia que queria conversar pessoalmente.

- Nada feito, amigo – cortou Marcelo. Sua experiência como jornalista lhe apontavam sempre para duas coisas: uma, proteger sua fonte, principalmente aquelas que eram valiosas e lhe garantiam furos; a segunda, nunca entregar nada de mão beijada. Ou seja, sua coluna no jornal tinha um preço, um bom preço, do tamanho de sua vaidade, e mesmo que a informação que o tal Ermínio tinha a lhe passar fosse quente, precisava de alguma segurança. E isso significava uma prévia da história que tinha a lhe contar, algo que pudesse ser publicado como introdução de uma grande reportagem.

- Veja, entendo, mas é um assunto delicado…

- Não importa.

Marcelo não queria que desligasse o telefone, mas precisava ser duro, como um bom negociante que, antes de aceitar diminuir o preço de um produto, dizia que não poderia tirar nada do valor, que era aquilo e pronto, com o objetivo de verificar até onde o cliente pretendia chegar.

- Olha, senhor Ermínio, ou seja qual for seu nome, porque suspeito que esteja tirando com minha cara. Mesmo assim, estou te dando trela. Porque algo no meu faro diz que pode sair alguma coisa importante do que está me dizendo. Mas… mesmo assim, o senhor diz que não pode me falar nada? Pelo que me lembro, foi o senhor que ligou para mim. Nem mesmo te conheço. Então, se não tem mais nada a dizer, vou desligar e cuidar de minha vida, porque…

- Espere – o homem pareceu aflito. – Não desligue.

Marcelo ouviu um suspiro longo do outro lado. Depois barulho seguido de motores de carro, o que indicava que o sujeito deveria estar falando de um celular ou de um telefone público da rua.

- Está bem. O senhor precisa confiar em mim, né? É um jornalista famoso…

“Se fosse famoso, não estaria enfiado nesta merda de jornal, vivendo esta merda de vida. Estaria tomando margueritas em algum lugar da América Central ou Caribe”, pensou Marcelo, sem dizer nada, no entanto.

- É uma bomba. Deveria ficar calado, mas não posso… mas é delicado também, entende? Tem muito material… e minha vida pode se foder por isso, entende?

- Todos dizem isso… – Marcelo decidiu esticar ainda mais a corda.

- Você conhece o Senador Paiva? Sabe do poder dele?…

- Hum… – o jornalista acendeu um cigarro e olhou para o relógio. Um belo rolex que tinha ganho de Emanuela. – Todo mundo nesta merda de cidade conhece ele. Acho que no país também. É carrapato de todo sangue que cheira a poder. Mas parece bom moço. Bem votado, terceiro mandato. Influente.

Silêncio do outro lado. Marcelo temeu por alguns segundos que Ermínio tivesse desligado, mas, antes que o chamasse, a voz ressurgiu, mais decidida.

- E se eu dissesse que ele está envolvido em um crime?

Marcelo gelou. Gelou por dois motivos: pela possibilidade de estar realmente diante de um engodo e, nesse caso, ter desperdiçado minutos preciosos de seu dia de trabalho, ou pelo fato de essa denúncia ser verdadeira, o que lhe garantiria caminhos amplamente abertos em toda a mídia do país.

- Que tipo de crime?

- Morte. Assassinato.

Agora era o jornalista que se calava. Estudava seus próximos passos.

- Isso é on ou off? – perguntou, usando o jargão jornalístico que se referia a uma afirmação ser publicável ou não. Claro, o peso entre o certo ou errado, entre respeitar ou não essa baliza que conduzia o trabalho de profissionais de imprensa, variava de jornalista a jornalista. Mas Marcelo se orgulhava de valorizar suas fontes. Aliás, por vezes pensava que eram as únicas coisas que realmente valorizava na vida ácida que tinha.

- On – respondeu de pronto o homem, mostrando-se conhecedor do jargão. – Mas só isso que lhe disse.

- Por que está confiando em mim?

Ele não respondeu. Marcelo tentava entrar na próxima fase desse jogo, como se aquele diálogo fosse um daqueles jogos que seu filho Murilo jogava em frentre à TV e que lhe ocupava grande parte da tarde.

- Porque você é famoso. Porque conheço muita gente que conhece o senhor. E porque sei que é ambicioso o suficiente para não jogar seu nome na merda. Por isso, nem penso em blefar, senhor Kovich.

Ele estava certo. Não respeitava suas fontes porque era ético, mas sim porque publicar matérias que se mostravam corretas, bombásticas, que desvelavam fatos que autoridades não podiam negar era o seu segredo de sucesso.

- Está certo – Marcelo usou uma entonação de quem se dava por vencido. – Mas quero garantir o meu. Primeira página do cardeno de hoje, com garantia de manchete de capa na edição de domingo.

- O que vai publicar?

- O que me disser. E me autorizar.

Era uma boa estratégia. Colocar nas mãos das fontes um certo poder, fazer com que se sentissem importantes, se envaidecessem. Isso geralmente garantia excelentes histórias, muitas vezes amizades pagas com viagens e dinheiro, outros vezes com furos que arrasavam reputações.

- O Senador, senhor Paiva, está envolvido em assassinato. Isso eu posso comprovar.

- Vou precisar das provas.

- Claro. Não estou estúpido senhor Kovich. Tenho tudo em mãos. Mas só o senhor, eu e Deus sabemos disso.

Ele citou Deus. O que queria dizer que era um excelente ator dramático ou realmente estava com medo de morrer devido às informações que tinha.

- Cito o Senador? Pode me mandar essas provas?

- Te entrego pessoalmente.

- Quando?

- Você não vai publicar o nome do Senador… ainda?

- Não. Preciso de provas. Como você disse, minha reputação está em jogo. Não posso afirmar algo que não posso provar.

- O senhor é mesmo um bom profissional, senhor Kovich.

O elogio quase fez Marcelo rir. Nem mesmo ele sabia o que tinha de verdade correndo em suas entranhas, o que se escondia de mais negro.

- Ponha aí… – disse Ermínio, como se, agora, realmente detivesse todo o poder. – Membro importante do Senado pode estar envolvido em assassinato.

- Assim? Simples? Sem provas?

- Já vi isso outras vezes, senhor Kovich. Sou ex-boia fria, ex-pau de arara, mas sei ler e leio seu jornal. E outros. Sei que vocês usam esta frase… “Fontes que não quiseram se identificar…”.

- Vou ter que comprar uma briga com meu editor para publicar essa merda.

- Sei que o senhor pode. E lhe dou garantia de que a coisa não para aí.

- A história vai ter que continuar, o senhor sabe… quando vai me entregar o restante das provas? – perguntou Marcelo, acendendo seu segundo cigarro do dia.

- Ligo para o senhor hoje, lá pelas dez e quinze da noite. Vou estar livre, sem ninguém por perto. Sem suspeitas. O senhor pode me atender?

- Vou estar aqui, neste mesmo número.

Fim de conversa.

Desde então, Marcelo esperava pelo retorno do tal Ermínio, que não veio. Estava convencido de que tudo não passava de uma obra de ficção de um candango criativo, que quase lhe ludibriara. E fez com que perdesse pontos valiosos com Teodoro, com quem já tinha um déficite enorme desde que lhe emprestara dinheiro para pagar as dívidas de seu divórcio.

Saindo do jornal, perto das onze, ouvindo do estacionamento as rotativas trabalharem a todo vapor para que a edição de sábado saísse para as bancas às três da manhã, amaldiçoou a sua ingenuidade. Estava realmente perdendo o feeling, o faro.

Por sorte, Teodoro não publicou a denúncia como havia sido acertado com sua fonte de merda.

Destravou a porta de seu Polo preto, arrumou o retrovisor e tirou o celular do bolso da camisa.

- Alô -  uma voz feminina atendeu.

- Ainda está acordada?

- Marcelo? Fiquei te esperando…

-  Rolos. Fiquei preso no jornal. Queria te ver.

- Pode vir. Esquento o macarrão.

- Não precisa. Estou sem fome… pelo menos, fome de comida.

- Estou te esperando de outro jeito…

- Quinze minutos estou aí – confirmou Marcelo e, antes de desligar, acrescentou: – Ah, você tem uma caixa de Marlboro para me emprestar?

O Natal sem mamãe

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O Natal sem Mamãe (Scortecci Editora, 2008)

Toda a família tem suas chagas, muitas vezes, escondidas sob a aparente felicidade.
A morte da matriarca dona Andreza dá o tom a celebração de Natal da família Pensolatto.
A ceia, agora a cargo da filha mais velha, Nena, traz à tona uma série de recordações e dramas vividos em seu passado e de suas irmãs Gênova e Carolina, vítimas de uma mãe superprotetora e de um pai de caráter obscuro.
O Natal sem Mamãe é o primeiro romance publicado de Paulo Stucchi de debate os laços familiares que, muitas vezes, não são fortes o bastante para esconder as cicatrizes da infância.

Preço: R$ 28,00
Editora: Scortecci – www.scortecci.com.br
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Confira o 1º Capítulo!

A experiência de Nena como principal cozinheira da família dava-lhe a certeza de que o frango estava quase no ponto. Era sempre assim no dia 24, véspera de Natal. Sua casa, um sobrado em um bairro convidativo de classe média, ficava infestada dos mais variados aromas culinários, todos misturados em uma atmosfera composta por temperos exóticos, carne invariavelmente assada, batatas e néctares de frutas frescas. Vinte longos anos na mesma rotina, o Natal em família.

Esquivando a ponta dos dedos de unhas recém-pintadas para o jantar da noite, Nena vestiu a luva de cozinha, acolchoada e estampada por flores em tons verdes e amarelos. Com a agilidade de quem fazia o mesmo trabalho há anos, posicionou as bandejas e a assadeira  sobre a mesa de centro da ampla cozinha, afastou os copos com água e restos de misturas de temperos caseiros e, afastando-se, observou sua obra como um artista que conclui um quadro. O relógio que decorava a parede serviu para lembrá-la de que Rubens estava para chegar. Como sempre, estaria faminto, voltando do shopping com sacolas recheadas de presentes. Dizia que, quando os filhos eram crianças, era mais fácil comprar-lhes presentes. Agora, adolescentes, tudo ficava mais difícil, as exigências redobravam.

Era assim. Agora, mais do que nunca, os dois filhos do casal davam trabalho. Mas Nena estava conformada com isso. Tinha uma família perfeita, como pediu a Deus. Casara-se aos 23 anos e, aos 44, podia ter a satisfação de ter todos mais uma vez reunidos na sala de sua casa como ocorria há vintes anos.

Com um pouco de dificuldade, conferida pela idade que chegava e pelas cruéis dobras de gordura no abdômen, o que as lembrava da necessidade de retornar à ginástica, agachou-se e abriu a porta do forno. O perfume do frango assado invadiu de forma impiedosa a cozinha. Provavelmente, havia chegado à sala. Constatou que faltava ainda um tanto para estar pronto. Tornou a fechar a tampa do forno e retirou as luvas de cozinha. Estava só na casa. Andreza e Marinho estavam fora. Casa dos amigos, sempre os amigos. Mas os dois sempre respeitaram as reuniões de Natal. Sempre. Era um ato sagrado. A única oportunidade de verem os parentes, de desejarem saúde, paz e outros votos comuns  à data.

O silêncio da casa vez com que sentisse saudades da infância, onde a casa de seus pais, então sua casa também, vivia cheia de gente, principalmente no Natal. Sua mãe, também Andreza, como a filha mais velha, preparava o peru com uma receita que, dizia, era segredo de família, trazido pela mãe das terras de Florença. Havia muitas crianças, se não fossem primos seus, eram amigos ou simplesmente filhos de amigos de seus pais. Conforme rezava o costume antigo, era uma das poucas oportunidades que tinha de, à mesa, ouvir a conversa dos mais velhos que, sob o vinho, falavam de tudo.

Fechando os olhos e recostando-se no corrimão da escada, pôde ouvir novamente todo aquele barulho, música para seus ouvidos que, cada vez mais, acostumava-se ao silencio. Rubens passava tempos e tempos no escritório. Era advogado, trabalhava para uma firma. Apesar de conseguir manter os filhos em colégios particulares e dar a ela e às crianças uma boa casa em um bom bairro, cada vez mais via-se atolado de trabalho. O sonho de gozar uma meia idade um pouco mais tranqüila parecia distante do sonhado. A ela, cabia colaborar fazendo o que sabia de melhor, cuidar do estômago da família, dom herdado das veias italianas de seus pais.

Novamente pôde ver claramente, como se sua sala agora fosse a mesma sala humilde enfeitada com um pinheiro e bolas de plástico, a voz de sua mãe ditando-lhe, à beira do fogão, as receitas para o preparo da ceia natalina. O ruído aumentava sempre que seu tio Genaro chegava. Aí virava festa. Sempre assim. Para a família Pensolatto, reunião de família tinha que ser festa. Na cozinha, ao lado da mãe, sentia a alegria daquela senhora gorda, de bochechas rosadas e cabelo claro, que à beira do fogão ganhava uma tonalidade de pele mais avermelhada do que a carne do peru. Vez ou outra, o pai entrava na cozinha só para pegar mais vinho. Era assim. Tinha que ter vinho. E o peru era sagrado. Receita de mãe para filha. Untado com limão, m olho com calda de pêssego, cheiro verde, tempo de forno que, como passar dos anos, deixou de ser à lenha para ser a gás e, agora, elétrico. O peru sempre ocupou o lugar de destaque. Todos os anos, ao centro da mesa, o ator principal.

Nena aproximou-se da mesa de centro da sala e suavemente passou as mãos sobre ela. As lágrimas afogavam-na. Deu um soluço forte, enxugou o nariz com as costas da mão, recompôs-se. Aquela era uma noite de alegria. A pequenina mesa de centro transformou-se na grande mesa de madeira de suas lembranças e os rostos jovens de seus pais eram mais nítidos do que nunca. De repente, uma grande dúvida apertou-lhe o peito. Como seria aquela noite? Tudo iria transcorrer bem. Parecia que lhe faltava um pedaço.

Sobre um balcão, localizado de baixo de um espelho redondo que enfeitava a parede, pegou um porta-retrato antigo. Lembranças da viagem e Foz do Iguaçu. Ela, Rubens, seu pai Agostín e sua mãe Andreza. Todos lá. Tapou a boca para sufocar o soluço. Escutou quando o trinco da porta se mexeu.

- Nena, os presentes? – Rubens entrava carregado de sacolas, como todos os anos.

Ela limitou-se a olhá-lo com ternura e voltar o rosto novamente para o porta-retrato.

- Trouxe o presente do Marinho, de sua irmã e o do seu pai…como pediu. Camisa listrada, sem bolsos, certo?

- Você é um amor. – disse, começando a subir as escadas.

- Nena, não vai ver os presentes?

Ela parou. Parou mas ficou ali, dois degraus acima.

- Está cheirando. Acho que o jantar está queimando. – observou Rubens, sentado no sofá, remexendo algumas sacolas.

- Meu Deus! – Nena de repente despertou e correu para a cozinha. Sem as luvas e o mesmo cuidado de antes, envolveu as mãos em um guardanapo e tirou o frango do forno.

- Isso é frango?

- É…- respondeu, ainda de olhos inchados.

- E o peru? Sempre tivemos peru?

- Este ano não. – e colocou a assadeira sobre a pia – Este ano quis inovar. Gostou?

Rubens a olhou com ternura. Esticou o braço e apoiou-se no batente da cozinha.

- Tem certeza de que está bem para preparar esta ceia? Se quiser, podemos comer fora. Muitos fazem isso hoje em dia.

Nena ouvia com impaciência. Estava mais preocupada em experimentar o frango robusto e dourado à sua frente.

- O Serginho disse que tem um ótimo restaurante italiano aqui perto. Ele e a família vão…

- Eu já disse… – Nena tinha a voz irritada – …que nada mudou, Ru. Vamos ter ceia aqui em casa. Como todos os anos. Ponto, acabou.

- Só fico preocupado, querendo saber se está bem. – disse, esfregando as mãos em seu ombro – Isto é, sem sua mãe…vocês eram ligadas.

Nena largou o frango. Compreendia a atenção do marido. Tinha que corresponder.

- Você é um amor. Mas estou bem. Mesmo. Quando o pessoal chegar eu melhoro. Você vai ver. – e empurrando-o para fora da cozinha – Além disso, o velho Agostín está entre nós, não é, e devemos isso a ele.

- Está me expulsando?

- Você está suado. Vá tomar um banho e se aprontar. Depois vou eu. Logo, hein.

Rubens subiu as escadas. As sacolas ficaram na sala. Olhando para o frango sobre a pia, Nena voltou a chorar.